MOBILIZAÇÃO E SENSIBILIZAÇÃO

        A mobilização da comunidade efetuada pela Prefeitura Municipal de Cumbe através da equipe coordenada pela então Primeira Dama do município, Sra. Maria Antônia Andrade, reuniu no Centro de Idosos aproximadamente 85 pessoas para a primeira reunião, em 18 de fevereiro de 1998. Naquele primeiro encontro com a comunidade estiveram presentes os Srs. Wellington de Santana e Ítalo, respectivamente Assistente de Negócios Não Agrícolas e então Coordenador de área do Componente Organização do PRÓ-SERTÃO, a Primeira Dama do Município e os representantes das equipes técnicas do NUTRAC, Sra. Maria Anunciada Barbosa, e da CANOA DE TOLDA, Sr. Asthon Vital Brasil e Sra. Ana Claudia Leão. Durante a reunião foi exposto para a comunidade o que se pretendia. Para surpresa da equipe técnica, os participantes, na sua maioria mulheres que já exerciam algum tipo de atividade doméstica, profissional ou artesanal (tapeçaria e bordado), não se interessaram pelo projeto, alegando que não dispunham de tempo ocioso. Tinham vindo pensando que seria distribuído material para bordar como era costume do NUTRAC em administrações passadas ou que o Projeto oferecesse algum tipo de vínculo empregatício.
        Foi então que as equipes perceberam que, por se tratar de um novo tipo de artesanato, seria interessante procurar um novo público sem referências anteriores e sem preconceitos. Foi sugerido então que para a segunda reunião fosse convocado um público jovem, adolescentes que não tivessem nenhuma experiência com artesanato. Foram convidados então, os filhos das pessoas que ali se encontravam.
        Na Segunda Reunião, realizada no dia 28 de fevereiro, para surpresa geral, a equipe foi recepcionada por uma multidão infanto-juvenil, que aguardava à frente do Centro de Idosos. Eram cerca de 90 pessoas, número superior ao que se esperava. Assinaram a lista de presença 55 pessoas maiores de 14 e ainda havia aproximadamente 30 pré-adolescentes menores de 14 anos. Nessa oportunidade iniciou-se formalmente uma Oficina de Papel com o intuito de repassar os princípios da reciclagem de papel. Foi distribuída e trabalhada a cartilha "VAMOS APRENDER A RECICLAR PAPEL".
        As reuniões passaram a se realizar uma vez por semana, sempre às quartas- feiras, com início às 15 horas. Ao contrário do que se pensava, o número de participantes nas reuniões durante os primeiros meses manteve-se elevado e com um detalhe, muitos participantes entravam e saiam do grupo sem qualquer cerimônia e, quase sempre, nas reuniões seguintes apareciam novos interessados.
        Essa variação curiosa e o grande número de pessoas sempre presentes às reuniões, obrigou os instrutores a adotar algumas medidas e estabelecer alguns critérios para participação no grupo, a saber:
        · elastecimento do período de sensibilização, pois sempre apareciam novos interessados que não poderiam ser descartados;
        · utilização de técnicas de dinâmica de grupo e associações metafóricas para expressar os objetivos básicos do projeto e conceitos de associativismo;
        · realização durante as reuniões de oficinas com brincadeiras com o papel, para mostrar o que se pretendia produzir;
        · liberar a participação de menores de idade a partir de 14 anos contanto que estivessem freqüentando o ensino fundamental.
        Durante essa primeira etapa o número de pessoas que procurava o grupo era tão grande que começaram a aparecer algumas dificuldades, como:
        · falta de cadeiras e mesas suficientes para acomodar o pessoal;
        · desatenção à totalidade dos questionamentos individuais;
        · baixo rendimento nas reuniões

        EXPECTIVAS

        Durante a elaboração do projeto a idéia central, conforme já foi mencionado anteriormente, era produzir papel reciclado para a confecção de embalagens, o que se pretendia fazer em três ou quatro meses de trabalho, com um grupo de, no mínimo, 8 e, no máximo, 20 pessoas que trabalhariam em sistema de associação.
        Contudo as equipes técnicas do NUTRAC/PRÓ-SERTÃO/CANOA DE TOLDA tiveram que se adaptar à realidade e expectativas dos participantes do Projeto.
        A primeira grande expectativa do grupo era em relação ao resultado financeiro imediato das atividades: todos questionavam quando iriam começar a ganhar dinheiro. Apesar da grande maioria ser formada por adolescentes com idade entre 14 a 21 anos, um pequeno percentual dos participantes era formado por donas de casa e ex funcionárias de uma "Fábrica de Camisas". Essas pessoas manifestaram várias vezes o desejo de receber "Salários para trabalhar na Fábrica de Papel". Outra expectativa da maioria era sobre o horário de trabalho e divisão das tarefas e que se o NUTRAC/PRÓ-SERTÃO comprariam toda a produção.
        Descobriu-se, mais tarde, que essas expectativas eram fruto de alguns fatores como: a "Fábrica de Camisas" mantida por uma empresa privada, estava em processo de transformação em cooperativa de mão-de-obra, onde toda matéria prima era fornecida pela empresa privada e comprada pela mesma. Esse processo tinha regras, horários e produção preestabelecidos. Pelo fato do grupo estar ocupando um espaço físico que já havia sido ocupado por aquela "Fábrica" e o Projeto ter uma proposta associativista, levou os integrantes do grupo a fazerem esses questionamentos e desenvolverem essas expectativas.
        Para esclarecer as dúvidas e atender as expectativas de geração de renda o mais rápido possível, foram adotadas algumas medidas e adaptações ao cronograma previsto:
        · os instrutores passaram, em todas as reuniões, a explicitar que o PRÓ-SERTÃO não dava nada, a não ser a oportunidade das pessoas interessadas em aprender um ofício novo, o de papeleiro;
        · que o início dos resultados financeiros e o valor percebido por cada participante só dependeria do empenho de cada um para aprender e produzir;
        · que, apesar de ser uma nova atividade, os produtos de papel reciclado tinham uma boa aceitação no mercado que teria de ser conquistado por eles. O Projeto não garantia a compra da produção, apenas faria os primeiros contatos com possíveis consumidores e clientes em potencial;
        · com o intuito de antecipar a produção e consequentemente a geração de renda, foi intensificada o processo de trabalho com papel trançado, permitindo a produção de peças decorativas e utilitárias, que poderiam ser confeccionadas por cada artesão, de acordo com a sua habilidade.
        · apesar desse processo poder ser desenvolvido individualmente, foi reforçada a necessidade de se trabalhar em grupo com o objetivo de se garantir uma produção mínima para ser levada ao mercado, o que ocorreu em maio/98 durante a realização da FISE - Feira Industrial de Sergipe, promovida pelo SEBRAE, onde obteve um bom resultado nas vendas diante do material apresentado;
        · foi adiada a formação da associação até o estabelecimento de uma unidade de pensamentos e de um bom volume de produção por parte do grupo como um todo.

        DIFICULDADES

        As principais dificuldades encontradas para operacionalização do Projeto estiveram relacionadas:
        · ao fato de ser novidade para a comunidade um tipo de artesanato feito com papel;
        · durante o período de 2 semanas o grupo ficou sem espaço físico onde pudesse desenvolver suas atividades, devido a algumas falhas no processo de comunicação entre o NUTRAC e a Prefeitura de Cumbe, que ao tomar conhecimento do término do treinamento, considerou que o grupo deixaria de existir, rescindindo então o contrato de aluguel do prédio onde funcionava o Projeto;
        · no período de chuvas (junho/julho), houve uma relativa evasão no grupo, porque alguns integrantes desenvolviam atividades ligadas a agricultura;
        · ocorreu também a redução da produção de papel reciclado devido a necessidade do sol para secá-lo;
        · deslocamento de técnicos para assessorar as reuniões em face da distância e da dificuldade de transporte;
        · adaptação do grupo à estrutura do novo espaço para produção;
        · primeiros contatos do grupo com o mercado;
        · a pouca idade dos participantes (numa faixa etária entre 14 a 21 anos), refletindo imaturidade em algumas posições/atividades do grupo como um todo;
        · dificuldade na compreensão do projeto sem retorno financeiro imediato;

        ATIVIDADES DE CAPACITAÇÃO E INÍCIO DO PROCESSO DE PRODUÇÃO

        A capacitação do grupo teve início quase que simultânea à sensibilização, uma vez que já nas primeiras reuniões foram repassados conceitos e técnicas básicas de reciclagem.
        Contudo, devido ao grande número de pessoas e o baixo rendimento com um grupo tão grande, a partir da reunião realizada em 11 de março o grupo foi subdividido em dois, com tarefas distintas, onde um trabalharia com o acabamento das peças (preparação de canudinhos de jornal, trançado, corte de moldes, dobraduras e colagem) e o outro com a produção do papel propriamente dito (separação das cores, picote, receitas, prensagem, moldagem, secagem e seleção por gramatura). Com esta iniciativa obteve-se melhor desempenho nas reuniões e foram estabelecidas metas a serem cumpridas por cada subgrupo de trabalho.
        Apesar dessa divisão, em determinados momentos as tarefas do grupo invertiam-se para que todos tivessem conhecimento sobre todo o processo.
        Em maio, às vésperas da primeira exposição que o projeto participou, na FISE, o grupo já havia atingido o primeiro estágio, qual seja uma produção mínima de papel trançado com aproximadamente 20 peças, embora apenas a metade com qualidade mínima para ser exposta e algumas folhas de papel reciclado onde foram recortadas caixas como experiência.
        Durante o processo de produção de peças em papel trançado, iniciado em julho visando atingir uma fatia do mercado já percebido por alguns integrantes do grupo que tinham participado da FISE, houve novo treinamento voltado à busca e confecção de novos produtos.
         A primeira produção foi de peças em cestaria de jornal (cestos para lixo, porta revistas, cesto para roupa suja, porrões, etc.). Essa produção foi absorvida diretamente por consumidores finais que visitavam o projeto, ou compraram as peças que estavam em consignação na loja do NUTRAC, ou mesmo através encomendas feitas pela CANOA DE TOLDA.
        O valor arrecardado pelas peças da primeira produção foi rateado com o grupo de forma igualitária e aberto caixa para reposição de matéria-prima (verniz, cola, tinta, etc.) e pagamento das contas de água e luz da sede.